domingo, 20 de maio de 2012

Estava Escrito...


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Fotografia de Weit


Aquele foi o mais doloroso dos diálogos...
Entrou em seu carro e, a partir daquele momento, não reconhecia mais nada. Pareciam-lhe estranhos os painéis, os controles, até as cores... O mundo vibrava em tons fortes e contundentes.

O tempo parou naquele olhar castanho. Enquanto se desfazia dos saltos altos, seu estômago revirava em acrobacias inéditas.
Onde estavam as chaves?
Onde estava o chão?
Tudo parecia tão diferente...

O motor ligado, os pés descalços e trêmulos nos pedais... O trânsito fluindo e seu olhar no espelho retrovisor. Ela o observava se afastando, cada vez mais em sentido contrário ao seu. Metáfora de tudo o que viveram, sempre se distanciando aos poucos.

Os segundos transformaram-se em séculos, os movimentos se desconectaram da força da gravidade e só a mente confusa parecia estar viva. Jamais teriam um amanhã. Jamais teriam uma história, filhos e momentos.
Ela jamais amaria alguém assim, porém, não haveria mais sol em sua estrada.

O carro continuou sua jornada ali, motor ligado, sem sair do lugar.
Ele se foi, assim como se vão os dias, como se vão as tempestades, como migram os pássaros no inverno. Tudo acontece porque tem que acontecer. Estava escrito... No livro dos dias, nas páginas douradas!
© Claudinha

.:: Música deste post: “Something” (George Harison) ::.
.::com The Beatles ::.

domingo, 13 de maio de 2012

A Vida Por Um Filho...


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Fotografia de Weit 




A aranha engendra a teia
A vida por um fio...
E o sereno borda as bordas
Com suas pérolas...

A manhã surge
No horizonte recortado
Das montanhas de ametistas
A vida por um fio...

Entre os postes e fiações
Andorinhas se equilibram
E descansam das algazarras diárias
A vida por um fio...

Em meu ventre
Bate forte
Um coração valente
Que me torna             
Imediatamente: Mãe!
A vida por um filho...

© Claudinha 


.:: Música deste post: “Canção Para Quando Você Voltar” ::.

.:: de Herbert Vianna e Leoni ::.

domingo, 6 de maio de 2012

Perigeu


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Imagem encontrada no Terra



O dia se despede preguiçosamente enquanto meus olhos procuram sorrir. A melancolia do ocaso sempre se apodera de mim.
Mas eis que, em meio às montanhas desbotadas pela penumbra, surge bela e imensa a super Lua.

Se sou Lua (e se sou de fases), assim como ela, hoje estou mais perto da Terra. Meus pés, mais que nunca no chão, obrigam-me a caminhar lenta e cuidadosamente pelos caminhos tortuosos...
Dela, só não trago o brilho. Talvez uma ínfima porção que teima em surgir em meu olhar.

Seu brilho me persegue, invade a varanda, as janelas e entra por todas as frestas da casa. Desperto e, ignorando o frio, me levanto.  Só pode ser um chamado.

Atendo, é esperança em forma de luz...
© Claudinha

.:: Música deste post: “Tendo a Lua” (Herbert Vianna) ::.
.:: com Paralamas do Sucesso ::.

domingo, 29 de abril de 2012

Das Lágrimas do Dia


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Imagem  de Weit



As lágrimas do dia escorrem pelas vidraças de minha alma.
Não entendo por que o dia cinza mimetiza em mim sentimentos gris. Penso que, talvez, minha essência seja susceptível à estas metamorfoses tantas.

A chuva, o frio, poderosa combinação que serve como gatilho para desencadear a introspecção... Nestas horas é que a lupa da percepção torna-se ativa e nos damos conta daquela velha colcha de lã, tecida em noites à frente da televisão... De como é gostoso saborear uma xícara de chocolate quente observando a natureza dançar com o vento e banhar-se de verde novo... De como é bom sentir o cheiro dos filhos, ouvir suas vozes e canções.
Mais uma vez, é hora de agradecer. E assim, em oração silenciosa, peço ao Pai que irradie o calor em nossos corações.

Lá fora, o dia segue choroso. Aqui comigo reacende-se a chama da esperança...
© Claudinha

.:: Música deste post:“O vento, a chuva, o teu olhar” (Flávio Venturini / Vermelho)com 14 BIS::.

domingo, 22 de abril de 2012

A Calculadora


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montagem, calculadora antiga e janela OPMG
Imagem de Claudinha - Antiga calculadora via google e janela em Ouro Preto - MG


A velha máquina calculadora jazia quase que abandonada em cima da mesa do escritório. Não fossem as investidas da menina, brincando de secretária - privilégio raro (concedido ou não), enferrujaria, ou mesmo, seria esquecida. Apertar aqueles botões e bolinhas, usar a manivela, era brincadeira séria, de gente importante! Mais que uma lembrança, mais que o perfume das flores e frutas que entrava pela janela, ficou a imagem da inocência daqueles dias...

O velho sino, Rafael, soa. O dia especial já raiou, é preciso acordar...

Era 21 de abril... Cerimônias na praça central da cidade, os ‘Dragões da Independência’ se perfilavam e, quais estátuas de cera, derretiam ao sol brilhante, sem reclamar. Lindos jovens, montados em cavalos que insistiam em escorregar na pedra-sabão... Orgulho da pátria (!)... 


Helicópteros singravam os céus, turistas invadiam as ladeiras. Todos eram suspeitos. Fileiras de políticos e militares lembravam pinguins se acotovelando por causa do frio, mas ali era por medalhas e mais medalhas (para eles???). Confidentes o tempo todo. Como reagiriam os Inconfidentes diante destas cenas? Quem gostaria de viver numa 'capital por um dia', neste dia, nestas condições? Quem gostaria de ter o “seu” heliporto, lugar de ver desenhos em nuvens, de soltar pipa, invadido por uma parafernália de máquinas do exército? Quem gostaria de ter o seu “museu” preferido trancafiado e cheio de metralhadoras apontadas para o público? Quem gostaria de ouvir seus sinos centenários brindarem outros, que não os heróis? Brindar outra coisa que não a Paz? A menina não gostaria...

Muito melhor seria fugir para aquela velha casa na rua Rodrigues Silva, aos pés da Pedra da Saudade... Melhor seria ter uma janela longe do centro da cidade, onde não ficariam soldados armados (‘amados ou não’) dentro de sua própria casa, vigiando os acessos (‘há perigo na esquina’). Melhor seria ir para onde a privacidade imperaria e ninguém que entrasse pela cidade fosse suspeito. Lá, o único som metálico seria o da velha máquina de calcular...

Lá haveria o sorriso dele, as árvores caiadas e podadas no pomar, os balanços  de pneus dependurados nelas, as roseiras, as frutas colhidas só para os netos...  Lá, o tempo passaria lentamente, capturado pelo rolo de papel da antiga geringonça, que imprimiria os números resultantes de operações matemáticas básicas, em vermelho ou preto, suas cores preferidas. Lá, os sons da rua, da casa, do vento nas cortinas se misturariam aos do escritório e a vida seguiria...

© Claudinha



.:: Música deste post: “Como nossos pais” (Belchior) ::.
.:: com Elis Regina ::.

domingo, 8 de abril de 2012

Como um girassol...


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Weit - imm.io



Ali! Imensos e rústicos, colorindo todo o campo!

O que o grande Criador queria nos mostrar com isso?

Todos com delicadas e inúmeras pétalas, amarelando a colina e, se faltar um, todo o desenho fica comprometido... Vistos de perto, talvez passem a falsa impressão de serem rudes. Mas, se olharmos bem, refletem a cor do sol e o fitam por todo o dia. Espelham suas cores no poder e glória do astro-rei. Fiéis, seguem-no pelo arco celeste, como que maravilhados, sorvendo a energia da vida com que fabricam o seu alimento.

Talvez, seja mais uma ‘pista que Deus deixa para sermos felizes’*. Seguir a energia maior e alimentar nosso espírito, espelharmo-nos na luz e também a refletirmos para todos que nos cercam na forma de sorrisos, fazendo o bem... Renascer à cada manhã, é preciso! Todos juntos!

A natureza nos ensina, é só observar com alma e coração!

Feliz Páscoa a todos!
© Claudinha
 *Leoni e Léo Jaime
.:: Música deste post: “Angel” – Sarah McLachlan ::.

domingo, 1 de abril de 2012

De todos os tempos


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Imagens de Weit

Adoro me (des)equilibrar
Nos trapézios de seus braços
Para mergulhar vertiginosamente
Em suas águas mornas
Nem sempre calmas
Do desejo

Adoro me perder
Entre suas palavras
E lábios moucos
Que me atiçam os sentidos
Nos ouvidos mudos e na pele densa
Da paixão

Adoro ver meus olhos
Em seus olhos de mar
Na loucura de todas as mãos
Que dedilham meu corpo
Á procura da claridade do tempo
Nosso algoz de todo os tempos

E desses mergulhos
Só nos resta
O cristal das horas
Que teimamos em não ver
Para que assim
Possamos amanhecer
Corações de algum dia
Em algum tempo
De todos os tempos...

© Claudinha

.:: Música deste post: “Amor é para quem ama”  – Lenine ::.

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