Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Para Zélia, com carinho...


Eu soube das últimas notícias pela televisão. Ela se foi... Há quanto tempo não conversava com ela... Apesar disto, não me entristeci. Sei que viveu intensamente, que lutou por seus ideais e que deixou sua essência perfumando nossa imaginação com as memórias e nossos olhares com fotos documentários de um amor maior. Juntaram-se finalmente onde escolheram para, transformados, serem sal da terra.

Na verdade, conheci o seu amor primeiro. Encantei-me com suas letras e com a Bahia que ele pintava em suas obras de arte. Eu, uma menina moça atrevida, que devorava todas as coleções de livros de minha mãe. Descobri Jorge nos anos 70. Li todos os seus palavrões, descrições e verdades cruas com a permissão de meus pais e contra as normas do meu colégio. Jamais tinha pensado que alguém fosse capaz de escrever coisas que me ruborizassem e eu fosse gostar tanto. Assim, conheci os cantões daquela terra, os hábitos, as maldições, as muitas bênçãos, os costumes, o sincretismo religioso, os amores vadios e tardios, o povo que pintou com suas cores de pomba gira. Ele ligava a minha Minas ao porto, ao mar, e o sal daquelas praias entranhou em minhas veias criando elos.

Ao saber de sua biografia, encantei-me por aquela paulistana baiana que datilografava suas letras. Aquela que o acompanhava desde a luta, desde os desencantos e registrava em fotografias os momentos. Tornei-me amiga daquela senhora de rosto sorridente. Viajei com ela para o exílio, ajudei-a a conseguir sabonetes que eram racionados, a fazer jantares para os amigos brasileiros lá, acompanhei-a na Sorbonne e na vida de saudades e preocupações com os que aqui ficaram. Aprendi um novo significado para a anarquia e a ver que minha família não era anormal. Não entendia da política e era encorajada e fugir dela, mas gostava da maneira como aquela senhora me contava sua vida e suas experiências. Assim, ficamos amigas e ela jamais soube disto, ou soube, porque quem escreve memórias sabe que, nós leitores, invadimos sua vida sem cerimônias.

Eu quis deixar registrado, porque naqueles tempos eu ainda era a menina que lia deitada de bruços na cama do quarto de hóspedes e descobria meu mundo de sonhar. Vivia entre as estradas de ferro e minério, montanhas de ametistas e todos os mundos que os autores me levavam a conhecer pelas suas mãos. E ela foi um destes.
A imagem que fica dela é de um olhar vívido e um sorriso verdadeiro...

© Claudinha

* (Imagens: Google)
Corujice Assumida:
Meus amigos queridos, gostaria de avisar a todos que minha caçula voltou a blogar. Ana Júlia é uma menina de dez anos, dona do blog Crônicas De Uma Menina. Vale uma visitinha!
Beijos e obrigada também aos amigos que a visitaram!


.:: Música deste post: “Ponta de Areia” (Milton Nascimento e Fernando Brant)::.
.::com Nana Caymmi::.

Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Flores de Maio Azuis

casaco de bebê( Casaco de Bebê - criação Magia do crochet)


Meu querido diário...

Lá fora o frio embaça as vidraças de minha casa quentinha. Sim, ela é acolhedora! Apesar do pouco tempo que disponho, bem sabe você que faço o possível para todos ficarem protegidos das intempéries.
Ando desatenta para a vida que me cerca, não tenho visitado Ventania e sua imponência verde de montanhas e vales. Sinto falta daquelas mãos de vento despenteando meus cabelos, do ar puro. Não sei o que se passa comigo... Um sol mentiroso acaba de se esconder por detrás de suas montanhas. Fico observando o espetáculo e sentindo o cheiro de passado que tem o ar frio.
Logo virão a lua e as estrelas. Noite limpa, madrugada de geada. Como naquele dia 19 de maio, há dezessete anos atrás...


Minhas mãos venciam as gélidas sensações climáticas num malabarismo frenético das minhas agulhas de tricô. Daqueles fios de lã fofa, teci um casaquinho azul com golas de ponto arroz e botõezinhos de madrepérola. Cada ponto um momento, cada laçada uma emoção. Um dia, o primeiro movimento, depois muitos outros esperados. Eu preparava a vida, eu preparava o amor incondicional.
Lembra-se, meu querido? Naquele tempo eu ainda escrevia para você em meus longos textos nos cadernos de capa dura. Eu lhe contei tudo e juntos fizemos nossas descobertas mais preciosas.
E o menino chegou assim, na “virada da lua”, exatamente nove luas depois (como os índios) e exatamente uma semana antes que a marca oficial dada pelo ultra-som. Era um domingo e Cid Moreira anunciava “Está começando o Fantástico” na televisão da sala de espera, ao lado da sala de parto.
A família se acotovelava. De um lado o primeiro neto, do outro o sexto, mas que era mais que primeiro. O pai comemorou como se fosse um gol, daquele jeito lindo que faz a arquibancada vibrar quando ele joga futebol. E ele chegou aos meus braços, com o casaquinho azul que eu fiz, os fartos cabelos negros lavados, mãos enormes de homem e uma enfermeira apavorada com três mudas de roupas do bebê que não serviram e que foram imediatamente doadas para o hospital. Meu menino já nasceu usando o tamanho médio, mas o casaco azul serviu, porque foi feito com olhos de mãe.
Dezessete anos!
Hoje vejo um homem com coração de menino, não mais um bebê e sim o meu BB. Temos nossos momentos difíceis, nossas diferenças, mas temos muito mais em comum. Somos carne da carne, somos mãe e filho, o amor maior que existe! Eu vejo a doçura por detrás daquelas duas jabuticabas no olhar, eu sinto o carinho nos abraços e colo que ele me dá. Eu ainda sinto a mesma sensação do toque de sua mão, desde a primeira vez...
Assim meu querido diário e amigo, mais uma vez, compartilho com você meu momento de Luz e me despeço deixando em suas páginas as pétalas do meu amor de mãe. Estas têm perfume eterno...

Até a próxima emoção!

© Claudinha

.:: Música deste post: “Sapato Velho ” – com Roupa Nova ::.

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Ó Mãe, Me Explica!

***
*Meus pais e eu (na fábrica) /1964
Lembro-me como se fosse hoje...
Ela era (e ainda é) uma mulher muito bonita. O rosto jovem e os longos cabelos negros, naturalmente ondulados. Eu a observava da altura de sua cintura, intrigada com aqueles cremes e coisas de menina, segundo ela. Nem mesmo sua pouca estatura me tirava (e me tira) a impressão de que ela sempre foi muito “maior”! Eu tinha a curiosidade de toda menina, querendo saber todos os porquês deste mundo.
Eles, meus pais, formavam um casal muito bonito e chamavam a atenção onde quer que fossem pela elegância e pela beleza.
Lembro-me de suas mãos, as unhas bem feitas. As mesmas mãos que seguravam as minhas durante as madrugadas de medo, pelas grades do meu berço-cama. Espalhava seus cremes pela pele invejável como se pintasse um de seus quadros de paisagem. Usava banlon e eu também, era a blusa da moda, era nossa cumplicidade de meninas.
Sentindo-se vigiada, uma vez me olhou e disse: “Eu tenho que me cuidar, já tenho trinta e seis anos”!
Aquela frase até hoje retumba em minha cabeça. Como ela era “velha”, meu Deus! Pensei eu... Imagine só ter todos estes trinta e seis anos! Perguntei a ela quando eu teria esta idade e ela me respondeu: “Ah... Só no ano 2000!” Foi com grande alívio, pois eu ficaria “velha” assim muito tempo depois. O ano 2000 era ficção científica, era um futuro de naves espaciais. Eu viveria como “Os Jetsons” e até lá os cremes seriam substituídos por comprimidos miraculosos... Não precisava me preocupar!

Também me lembro como se fosse hoje...
Ela me ajudando a fazer as malas para minha viagem de lua de mel. Meu guarda-roupa aberto... Restavam poucas coisas ali e ficava um estranho vazio no ar. Era como se o cordão umbilical se rompesse novamente. Não foi o mesmo sentimento de quando saí de casa para fazer faculdade, meu primeiro vôo. Foi como sair do ninho, de uma vez. Eu seria dona do meu nariz (finalmente!).
Aproveitamos o momento para conversar e lembrar de passagens como a que citei anteriormente. E ela me avisou que era apenas uma cena que se repetira com ela e que se repetiria um dia comigo.
Lembrou-se de minha avó Carmem sentada em sua máquina de costura Singer, bordando enxovais. Observando-a, perguntou-lhe a idade, e esta respondeu: “cinqüenta e nove anos, vou fazer sessenta”! Minha mãe conta que ficou atônita e pensou, “nossa” como minha mãe está “velha”... E ela nunca completou os sessenta anos!

E como é hoje...
Eu me cuidando com os cremes da moda. Sim, os cremes, nada de comprimidos miraculosos. Nem a nanotecnologia cosmética chegou até mim. No ano 2000, eu não vivia como Os Jetsons. Tinha minha vida atarefada e feliz.

Agora, distraída, me penteando diante do espelho de meu quarto, mal percebi minha caçula me observando. Senti a mesma cumplicidade daquele momento que vivi com minha mãe.
E ela me perguntou: “Mãe, quantos anos você tem?”. Respondi (já esperando a cena se repetir): quarenta e três!
Ela não pensou, falou com todas as palavras e sons bem nítidos: “Uau, mãe como você é velha”!
Eu a abracei e contei-lhe esta história. E ela contou para minha mãe... Respondi que tinha que ter esta idade, pois primeiro fui mãe do BB que já é um homem e depois fui mãe dela que já está do meu tamanho,que o tempo passa para todos nós e que ser “velho” é relativo.
Mas ela saiu pensativa, como certamente eu saí um dia...

Um feliz todo dia das mães para as mães que aqui vêm, para as mães e esposas dos amigos, todos muito queridos por mim!
Beijos grandes!

© Cláudia Cybele
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* Do centro e sentido horário:Carmem e José, minha mãe bebê, minha mãe e eu na fábrica, minha mãe e eu bebê, eu, minha primeira família, eu e o meu BB, eu e minha BBzinha, BB (quando tinha 15), BBzinha (quanto tinha 3 ).

Fotos e montagem: Claudinha

.:: Música deste post: “Feminina” – Quarteto em Cy ::.